Luxo: como enfrentar um crescimento cada vez mais caro?

Por Dominique Muret

Quem poderia imaginar há apenas alguns anos que uma sandália de luxo feita em borracha se tornaria “o produto” de 2017, com vendas em alta de 50% para meio bilhão de euros? Esse fenômeno diz muito sobre a evolução atual de um mercado de luxo cada vez mais dominado pelos Millennials, que leva a indústria de luxo a rever radicalmente suas estratégias.

Sandálias em borracha, tais como Faam, a Balenciaga com a Crocs, são o novo símbolo do luxo | Foto: Balenciaga

Saem a bolsa e o relógio ultra-chamativo e caro! As marcas não têm mais medo de se orientar para o casual e até mesmo para o streetwear, para interceptar as gerações X ou Y. A segmentação do mercado tal como funcionava há pouco tempo, entre o luxo acessível, o luxo de aspiração, e o absoluto, acabou. Com a Web, a base de clientes foi ampliada e quer vivenciar experiências acima de tudo.

Com o seu poder de influência, as gerações mais jovens, que representam 30% deste mercado, ditam as regras, conforme ilustra o relatório anual “Worldwide luxury market monitor 2017”, publicado pela Bain & Company em nome da fundação Altagamma, que reúne empresas italianas high-end. Os Millennials sozinhos geraram 82% de crescimento, ou seja, os 12 bilhões adicionais arrecadados pela indústria de luxo para atingir um total de 262 bilhões de euros em 2017.

“O modelo mudou totalmente. Já não se compra um produto como um status, para mostrar que é pertencente à elite, mas para expressar a própria individualidade e valores. Eu sou o que escolho e não o que eu possuo”, resume Claudia D’Arpizio, sócia da Bain & Company e autora do estudo. A indústria do luxo enfrenta um consumidor universal, que dificilmente pode ser segmentado. Ele é um consumidor informado e sofisticado que quer ser mimado. Ele quer ser surpreendido quando está em seu país, e ser considerado um cliente local quando está no exterior.

“O que faz o dinheiro sair da carteira é a emoção. É nesse ponto que temos que ser extremamente eficazes para surpreender o cliente a cada momento, continuamente. O conceito de indústria madura não existe mais. Cada metro quadrado de loja deve ser uma experiência. Você tem que ter a capacidade de contar uma história incrível o tempo todo”, diz o ex-chefe da Luxottica, que atualmente lidera o supermercado high-end, Eataly.

O perfil dos consumidores de luxo mudou dramaticamente | Foto: Bain & Company – Altagamma

“Tudo isso altera a estratégia das marcas de luxo, com mais riqueza e diferenciação em seu conteúdo. Elas devem ser autênticas e não copiar, e ao mesmo tempo devem cuidar dos pequenos detalhes com um trabalho de merchandising muito preciso para todas as categorias de produtos e preços. Essa atenção e cuidado extremos aplicados em todos os níveis são as novas palavras-chave para o luxo”, diz Claudia D’Arpizio.

As empresas de luxo precisam criar um diálogo entre inclusão e imersão, que irá substituir o esquema monolítico e elitista do passado. “Isso implica em muita clareza e consistência de imagem, bem como em uma integração em todas as redes de vendas e contatos, criando um ecossistema interdependente”, observa a analista.

O mercado conta com 20 mil lojas de luxo em todo o mundo. Em 2012, havia uma estimativa de abertura de 1.000 lojas por ano, hoje são cerca de 350. Mas o estudo mostra como a loja permanece sendo um elemento importante para a experiência. As vendas no canal varejo aumentaram 8% em 2017. Todas as outras redes também tiveram crescimento nas vendas, com exceção das lojas de departamento, negligenciadas pelos Millenials (e-commerce + 24%, lojas especializadas +5 %, multimarcas + 3%, aeroportos + 12%).

A indústria de luxo continua sendo muito rentável, já que acumulou em 20 anos 350 bilhões de euros em lucros, com um crescimento médio anual de 16% em seu lucro operacional. Mas criar experiência, diálogo e proporcionar mais cuidados em todos os níveis gera um custo.

A loja desempenhou um papel fundamental ao oferecer uma experiência ao cliente | Foto: Bain & Company – Altagamma

Claudia D’Arpizio ressalta: “65% das 300 empresas analisadas neste estudo registraram crescimento à custa da rentabilidade, pois o crescimento se tornou mais caro. Passamos de um negócio de despesas de investimento (capex) para um modelo no qual as despesas operacionais (opex) assumiram a frente.

Neste contexto e tendo em conta as previsões para 2018, que terá de lidar com um euro muito forte, o conselho é aproveitar a liquidez atual antes do aumento das taxas de juros esperadas para 2019.

“Precisamos tirar o máximo proveito dos recursos de longo prazo com condições favoráveis. Ou seja, nos próximos 18 meses”, conclui Vittorio Ogliengo, vice-presidente do banco UniCredit, lembrando que as marcas estão fazendo investimentos significativos no varejo, no setor de produção, na logística para maior eficiência, mas também na análise de dados.

Fonte: Fashion New Work

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