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Ostentando a verdade

Ostentando a verdade

Ostentando a verdade

A importância de ter um propósito

Por Joyce Pascowitch*

Legenda: Ilustração Maria Eugênia

Tenho pensado que o luxo de verdade hoje em dia não é o que aparece numa bolsa, num jatinho ou numa viagem pelo Mediterrâneo muito bem fotografada: hoje, conseguir trabalhar sabendo o porquê de nossas escolhas é que virou um luxo. Ter propósito parece simples, mas é bem raro. Principalmente para quem vive de criar.

Propósito também não vem pronto, embalado numa caixinha para durar a carreira inteira. Ele muda porque a gente muda. Aprende uma coisa, abandona outra, descobre novos interesses, revê aquilo em que acreditava. E o trabalho, quando está vivo, acompanha esse movimento. Quando perde esse fio condutor, pode continuar bonito, correto, até bem executado e muito bem remunerado, mas alguma coisa começa a faltar. E quem está do outro lado percebe.

Por isso, me dá uma certa preguiça essa corrida para agradar o algoritmo. Tudo precisa render, performar, gerar comentário, compartilhamento. A tendência da vez aparece e, de repente, todo mundo está fazendo a mesma coisa. Pode funcionar naquele momento. Só que tendência passa depressa e, quando o trabalho foi feito apenas para pegar carona nela, sobra pouco depois que a onda vai embora.

Quem cria sabe reconhecer essa sensação. Tem o trabalho que parece nosso e tem aquele que saiu meio no automático, pensado para cumprir uma expectativa externa. Acho curioso como a gente percebe a diferença quase fisicamente. Um dá prazer, curiosidade, envolvimento. O outro começa a ficar chato antes mesmo de ficar pronto.

E é aí que entra o cansaço. Tenho a impressão de que parte do esgotamento criativo aparece quando o trabalho perde o significado. Claro que ninguém precisa produzir cinquenta coleções por ano para provar paixão pelo que faz. Mas existe uma diferença enorme entre estar cansada fazendo algo em que acredita e estar cansada tentando alimentar uma máquina em andamento.

Quando o sentido está presente, acontece aquela coisa maravilhosa, o chamado state of flow. Você entra no trabalho e vai. No meio de tanta gente tentando parecer relevante, preservar uma razão pessoal para fazer o que se faz ficou cada vez mais difícil. Propósito não aparece nas métricas, não garante a foto mais bonita e provavelmente não cabe num relatório de desempenho. Mas é justamente o que faz a gente reconhecer quando um trabalho tem alguma coisa de verdade ali dentro. E isso, com certeza, se torna bem mais interessante e satisfatório do que qualquer número no feed.

*Artigo Joyce Pascowitch para ‘Caixa Postal Joyce’ 

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