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Publicitário cria o The Club, primeiro ecossistema de relojoaria do Brasil

Publicitário cria o The Club, primeiro ecossistema de relojoaria do Brasil

Publicitário cria o The Club, primeiro ecossistema de relojoaria do Brasil

Cassiano Scarambone, empresário e colecionador, une marca nacional de relógios mecânicos, loja de vintages, pulseiras de couro e seguradora dentro de uma mesma holding

Por Ivan Padilla*

Cassiano Scarambone é um publicitário e empresário renomado, o mesmo que deu vida à Lu, da Magazine Luiza. Comprou parte da operação de Luccas Neto com a sua produtora Take4Content e hoje é sócio majoritário de um banco, além de ter participação em diversas outras empresas.

Cassiano Scarambone. Foto: Fernanda Scarambone

Mas só agora, diz, está se dedicando ao que realmente gosta: relojoaria. Há mais de três décadas coleciona peças raras e vintage. Hoje, soma mais de 50 relógios, e já perdeu a conta de quantos se desfez pelo caminho. Essa paixão começou aos oito anos, com um Champion comprado com o cachê de uma ponta em comercial de TV.

Dois anos atrás, Scarambone começou a montar uma holding chamada The Club, criada para transformar em negócio estruturado tudo o que antes era hobby. O projeto nasceu de uma constatação simples, segundo ele: o Brasil nunca teve um ecossistema de relojoaria organizado sob uma mesma casa, com marca própria, distribuição de vintage, insumos, manutenção e até seguro, tudo sob o mesmo teto.

“Comecei a olhar essas fragilidades no mercado“, diz Scarambone. O empresário resolveu redirecionar parte do capital — e, principalmente, know-how comercial e de comunicação — para dentro do próprio passatempo. Hoje, afirma, a holding toma 70% do seu tempo.

Os números do primeiro ano dão a medida do apetite do projeto. Segundo Scarambone, o The Club deve fechar 2026 com faturamento entre R$ 13 milhões e R$ 14 milhões. A margem Ebitda estimada é de cerca de 40%.

Essa conta não inclui o valor de marca já construído por duas das empresas do grupo. O capital alocado até aqui soma R$ 7 milhões, embora nem tudo tenha sido de fato desembolsado. Scarambone diz liberar os recursos aos poucos, conforme metas são cumpridas. É uma lição aprendida depois de já ter visto inúmeros casos de descontrole de caixa.

A estrutura do The Club hoje reúne quatro frentes de negócio, cada uma com sócios operacionais diferentes. E vem mais coisa por aí, garante o fundador.

Scarambone atua como investidor e responsável pelas estratégias de marca, comunicação e expansão — terreno em que, segundo ele, sua experiência de décadas em publicidade faz diferença. Quem toca a gestão do dia a dia é o diretor executivo Breno Pôssas, entusiasta da relojoaria e colecionador há mais de 20 anos. Breno alia esse conhecimento do segmento com a formação em finanças e marketing, tendo atuado e liderado times em empresas como Itaú, Banco BV e Livelo.

Entenda a seguir cada operação da The Club.

Ateliê Vezzani de pulseiras

A Vezzani, marca de pulseiras de couro artesanais, foi a porta de entrada de Scarambone no negócio. Fundada pelo curitibano Gabriel Vezzani— arqueólogo de formação, hoje com 26 anos —, a marca chamou a atenção de Scarambone em um evento. Ele se tornou sócio para ajudar a escalar a produção. O crescimento, diz, foi de em torno de 400% ao ano. Em setembro do ano passado, a produção era de cerca de 20 pulseiras por mês. Hoje são 250, com capacidade instalada para 300.

O ateliê também cresceu na mesma proporção. Ocupava pouco mais de 20 metros quadrados no início; hoje toma uma casa inteira de 500 metros quadrados em Curitiba, com sete artesãos trabalhando em tempo integral.

Parte do sucesso vem da ousadia em usar materiais que nenhum concorrente brasileiro havia explorado. A marca trabalha com canela de avestruz e pescoço de boi tratado como couro nobre, dois insumos até então descartados pelo mercado. Também usa couro de crocodilo-do-nilo, hoje escasso no país depois que a marca passou a comprar todo o estoque disponível de importadores brasileiros.

Uma ousadia da Vezzani foi ter feito uma edição limitada de pulseiras saffiano, um couro de bezzero patenteado pela Prada. Scarambone simplesmente recortou algumas bolsas Prada da loja de artigos de luxo de segunda mão de sua esposa para obter os insumos. As bolsas se foram, mas as peças de saffiano deram à marca repercussão entre colecionadores internacionais.

O prazo de entrega, hoje de até dez dias úteis, é apontado por Scarambone como vantagem competitiva em relação a nomes consolidados do mercado internacional, como a francesa Camille Fournet, que costuma levar 45 dias úteis para entregar uma peça.

A contribuição de Scarambone até aqui foi dupla: capital para escalar a estrutura e ateliê, e a mão na parte de produto — foi ele quem pediu a revisão das primeiras pulseiras até chegar ao padrão atual.

Os próximos passos da marca são a internacionalização e o lançamento de edições especiais, além de cursos voltados ao próprio mercado de colecionadores.

Relógios Statera

Se a Vezzani foi a porta de entrada, a Statera é, para Scarambone, o projeto mais ambicioso do grupo. A marca de relojoaria de mecanismo manual foi fundada em Maringá pelo empresário Rafael Tribulato, que decidiu aprender do zero uma técnica secular de esmaltagem de mostradores.

É um processo artesanal e de alto risco: erros de temperatura ou de composição do esmalte fazem o mostrador rachar, exigindo tentativa e erro constantes até se acertar a fórmula. A marca lançou primeiro o ST01, um relógio de entrada, e depois o ST02.

O ST02 já vendeu mais de 200 unidades, ao preço inicial de R$ 21.000, e foi o responsável por colocar a Statera no radar do mercado de colecionadores.

O passo seguinte é o ST03. O relógio, de 38 mm e 8.7 mm de espessura, continuará com a técnica de esmaltação no mostrador e trará um calibre proprietário desenvolvido pela UhrTeil, empresa de Andreas Strehler, que também produz para H. Moser e Grönefeld.

Será a primeira vez que uma marca brasileira assina um calibre próprio produzido na Suíça. O relógio sairá em série limitada, de titânio, com preço de 20.000 francos suíços, platina e ouro rosé. O lote inicial deve ser de 50 unidades.

Scarambone hoje detém 25% da Statera e negocia a compra de uma fatia adicional, avaliando a conversa em estágio avançado.

Na Statera, ele faz questão de dizer que a criação do produto é mérito de Rafael. No ST03, trouxe algumas sugestões pontuais. Sua contribuição direta, segundo ele, está no aporte de capital e da experiência de negociação que ajudou a estruturar a entrada da Schwarz-Etienne no projeto.

I.V.U.W, o clube do vintage

A frente mais importante do grupo é a I.V.U.W., acrônimo de iconics vintages uniques watches, loja de relógios vintage fundada pelo empreendedor Higor Lopes. Scarambone comprou 50% do negócio ao adquirir fatias de dois sócios que deixaram o negócio.

Higor mudou o mercado de vendas de relógios vintage com um método de venda em grupos de WhatsApp e de Instagram, com peças raras anunciadas a cada dois ou três dias, com muitos vídeos e muita interação com sua comunidade. Depois da I.V.U.W., surgiram dezenas de vendedores com modelo semelhantes.

A loja movimenta hoje entre 80 e 100 relógios por mês, segundo ele, e mantém um estoque avaliado em cerca de R$ 4 milhões em peças de alto padrão, incluindo modelos raros do Rolex Daytona, como as de referência 6262 e 6263.

O plano para a I.V.U.W. é agressivo: transformar a loja até agora virtual em um espaço físico de 110 metros quadrados em São Paulo, atualmente em reforma, batizado internamente de I.V.U.W. Club. O local vai reunir a atual relojoaria, charutaria e uma oficina de revisão própria, com algumas contratações já sendo feitas. A ideia é resolver o principal gargalo da operação atual: a demora na revisão das peças que chegam toda semana.

O novo espaço também terá uma linha de roupas de couro masculina em parceria com a artesã Carol Rossato, além de um espaço dedicado a peças vintage de altíssimo padrão, hoje só acessíveis a um círculo restrito de colecionadores.

Desde que entrou, Scarambone diz ter contribuído com dois pontos concretos: acesso a peças raras que a loja não conseguia comprar antes, como referências de Rolex mais disputadas, e a estruturação financeira e organizacional do negócio, que ficou com uma lacuna depois da saída de um dos sócios.

A seguradora

A quarta perna do ecossistema é um seguro de relógios, fechado com uma seguradora de Londres e prestes a ser lançado no Brasil. Segundo Scarambone, o produto prevê prêmio de 3,5% do valor da peça para quem quiser sair às ruas com seu relógio. Para quem prefere segurar a coleção inteira guardada em casa, o percentual cai para 2,5% ao ano.

Um dos diferenciais, segundo ele, é a dispensa de nota fiscal — a avaliação de originalidade é feita por indicação da própria operação, que conhece o mercado de perto. É uma modalidade que, avalia o publicitário, ainda não existe estruturada no Brasil.

Nesta frente, a contribuição de Scarambone foi viabilizar o acordo em si: segundo ele, foi a influência do grupo no mercado de relojoaria que abriu a negociação com a seguradora londrina, algo que, avalia, dificilmente aconteceria para uma operação isolada.

Um relógio suíço com DNA brasileiro

O próximo movimento do The Club será uma marca de relojoaria totalmente suíça. Ela será concebida, desenhada e fabricada na Suíça, mas terá direção criativa brasileira.

O contrato já foi assinado com o decorador português Ricardo Teixeira de Carvalho, radicado em La Chaux-de-Fonds, na Suíça. Ele e o pai são fundadores da marca relojoaria De Carvalho. Ricardo é responsável por trabalhos de decoração para manufaturas como Grönefeld e Cyrus.

A marca terá um calibre turbilhão proprietário, também desenvolvido com a Schwarz-Etienne. O investimento inicial é de meio milhão de francos suíços, cerca e R$ 3,2 milhões, apenas para o desenvolvimento do movimento.

Scarambone estima lançar o primeiro relógio em 2027, em Nova York. Antes disso, pretende validar o design com um grupo de grandes colecionadores brasileiros e internacionais — repetindo, segundo ele, o caminho adotado por outras marcas independentes de sucesso, que testaram protótipos com especialistas antes de fechar o desenho final.

Para dar suporte técnico e estratégico a esse avanço, Scarambone montou um conselho informal do The Club. Ele reúne consultores especializados em relojoaria vintage e em relacionamento com colecionadores dos Estados Unidos, além dos próprios sócios operacionais de cada marca do grupo.

Neste projeto, a divisão de trabalho já está definida: toda a parte técnica e de decoração é de responsabilidade de Ricardo, enquanto o The Club — ou seja, Scarambone e sua equipe — assume as estratégias de venda e o desenho comercial da marca.

Os próximos passos

Os planos de médio prazo incluem a compra de novas marcas de relógios, no Brasil e no exterior, que complementem o portfólio sem concorrer diretamente com a Statera. Possivelmente alguma de entrada.

Scarambone também pretende abrir parte do capital da holding a investidores, em um modelo de participação inspirado em uma experiência anterior. Anos atrás, ele já havia dividido parte de outra empresa sua com o público de um criador de conteúdo.

A ideia, segundo ele, é popularizar o acesso a esse tipo de investimento de nicho, hoje restrito a poucos. O capital captado seria usado para acelerar aquisições e a internacionalização das marcas do grupo.

“Esse é um momento de virada pessoal”, diz o empresário. “Estou com 54 anos, trabalhei muito para chegar até aqui. Passei décadas construindo negócios e assim poder sustentar o hobby. Agora vou ganhar dinheiro com o que sempre foi a minha paixão.”

*Ivan Padilla é editor de Casual e Especiais da Exame.

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