Relatório aponta estabilização global, com a joalheria liderando o crescimento entre as categorias de bens de luxo ao se consolidar como ativo durável e reserva de valor

Por Matthieu Guinebault*
O mercado global de luxo caminha para uma fase de normalização após um período de intensa recalibração operacional e criativa, de acordo com o “Kearney 2026 Global Luxury Industry Outlook”, que projeta o crescimento do setor entre 2% e 4% no exercício atual. Trata-se de uma previsão mais moderada do que outras estimativas que circulam no varejo.
De acordo com o estudo, essa estabilização ocorre após o mercado global alcançar cerca de 530 bilhões de dólares em 2025, em um contexto marcado por maior disciplina de custos e gestão mais rigorosa dos estoques. A dinâmica atual deixa de premiar apenas a velocidade ou o efeito de escala e exige das casas de luxo maior clareza criativa para sustentar o vínculo com o consumidor em um ambiente macroeconômico volátil.
A demanda global por luxo segue estruturada em torno da tríade formada por Estados Unidos, Europa e China, que concentram tanto a oferta quanto a maior parte da clientela. No entanto, essas regiões deixaram de atuar como motores de forte aceleração para cumprir agora um papel de âncora de estabilidade.
Nos Estados Unidos, a correlação de 87% entre o índice S&P 500 (que reúne as 500 maiores empresas listadas por capitalização de mercado) e a demanda por produtos de luxo evidencia a dependência do setor em relação ao desempenho dos mercados financeiros. Na Europa, o crescimento continua frágil e depende em grande medida dos fluxos turísticos provenientes da América do Norte e do Oriente Médio, enquanto a China entra em uma nova fase de crescimento moderado, de um dígito.
Japão e Sudeste Asiático despontam como os principais polos de dinamismo rumo a 2026, impulsionados pelo investimento sustentado e pela concentração urbana de riqueza. O mercado japonês se beneficia de um consumo interno resiliente, amparado pelo desempenho dos mercados acionários, enquanto o Sudeste Asiático capitaliza o surgimento de uma nova geração de profissionais com alto poder aquisitivo. O Oriente Médio continua a contribuir de forma relevante para o crescimento global do setor, apesar da maior cautela decorrente das recentes tensões geopolíticas.
Por categoria, a evolução é desigual. A joalheria lidera o crescimento, com avanços entre 6% e 14%, impulsionada por sua percepção como reserva de valor e por sua durabilidade. Em contraste, o prêt-à-porter e o setor de calçados registraram quedas entre 5% e 7% em 2025, pressionados pela elevação de preços. Por sua vez, o luxo experiencial (que engloba hotelaria de alto padrão e gastronomia) mantém uma taxa de crescimento anual composta de 8% até 2028, refletindo um deslocamento dos gastos para experiências exclusivas em vez da mera aquisição de bens.
A integração da inteligência artificial no setor de luxo evolui de uma fase experimental para uma necessidade estrutural, com investimentos tecnológicos projetados para crescer 16,2% ao ano na próxima década. Segundo a Kearney, as marcas já utilizam essas ferramentas para gerir em tempo real a cadeia de suprimentos e reduzir excedentes por meio de previsões de demanda mais precisas. O surgimento da IA agêntica em 2026 está, além disso, redefinindo a “customer journey” (ou jornada do cliente), com sistemas autônomos capazes de filtrar ofertas e até realizar compras em nome do consumidor.
O panorama competitivo do luxo também passa por uma profunda reconfiguração, marcada por uma onda de mudanças nas direções criativas: o número de nomeações triplicou no ano passado em relação a ciclos anteriores. Esse movimento busca reativar a relevância cultural das marcas, por vezes enfraquecida por sucessivos aumentos de preços. Para a Kearney, essas transições são fundamentais para justificar os prêmios de preço em um contexto em que 73% dos clientes admitem ter reduzido suas compras diante da inflação do luxo.
Longe de abandonar o consumo, os clientes aspiracionais estão redefinindo suas decisões de compra, priorizando peças de alto valor intrínseco ou recorrendo ao mercado de segunda mão. Esse segmento da clientela, particularmente sensível ao ambiente econômico, obriga as casas tradicionais a reforçar sua proposta de valor diante da ascensão das marcas de luxo intermediário, que crescem de duas a três vezes mais rápido entre lares com renda inferior a 150.000 dólares.
A análise do comportamento do consumidor mostra ainda que 63% dos clientes hoje definem o luxo pela qualidade artesanal e pela durabilidade, acima do peso da marca ou do logotipo. Essa busca por significado favorece o investimento em peças atemporais em detrimento de tendências efêmeras e leva as empresas a reforçar a disciplina de preços e a reduzir as disparidades de qualidade.
A Kearney também alerta que o setor precisa gerir simultaneamente pressões sobre as margens, exigências mais rigorosas de sustentabilidade, riscos logísticos e o aumento dos custos de energia. Nesse contexto, o sucesso em 2026 dependerá da capacidade das empresas de substituir modelos de planejamento rígidos por processos decisórios mais ágeis e adaptados a cada mercado.
* Matthieu Guinebault* para Fashion Network


