Com vendas duplicadas nos últimos cinco anos, a fabricante suíça consolida o Brasil como mercado estratégico para sustentar sua escala global, apostando em mais de 230 pontos de venda em joalherias, em vez de lojas próprias.
A Victorinox, tradicional fabricante suíça, registrou um desempenho excepcional no mercado brasileiro, dobrando o volume de relógios vendidos no país nos últimos cinco anos. Em entrevista à Bloomberg Línea, Karl Kieliger, general manager da marca para a América Latina, revelou que o Brasil se tornou um dos mercados mais relevantes globalmente para a companhia, não apenas pelas margens, mas pelo volume expressivo que ajuda a sustentar a escala de produção da fábrica em Delémont, na Suíça.

Estabilidade em Ano Eleitoral
Diferente de ciclos anteriores, o início de 2026 trouxe uma surpresa positiva: a estabilidade das vendas apesar de ser um ano eleitoral. Kieliger observou que, historicamente, o mercado brasileiro de alta gama sofria retrações antes e depois das eleições, mas o cenário atual permanece calmo e em crescimento, mesmo diante de conflitos globais e instabilidades econômicas.
Estratégia de Capilaridade em Joalherias
Diferente de outros mercados que aposta em lojas próprias, a Victorinox adotou no Brasil uma estratégia de capilaridade por meio de parceiros. A marca conta com mais de 230 pontos de venda, distribuídos em joalherias independentes e grandes redes como Vivara e Monte Carlo.
Segundo Kieliger, essa escolha é assertiva: “Em vez de ter uma loja em São Paulo em um shopping de luxo, estamos no Brasil todo em centenas de lojas”. A lógica é que o relógio, sendo uma das poucas joias utilizadas pelo público masculino, deve estar inserido no contexto de compra desses estabelecimentos.
Fatores de Crescimento e Adaptação Técnica
Alguns fatores específicos têm impulsionado o setor:
- Migração de materiais: a alta nos preços do ouro e da prata levou consumidores a buscarem relógios de aço como uma alternativa de acessório de valor mais acessível.
- Resistência tropical: os relógios da marca passam por um protocolo técnico de 48 horas sob condições de calor e umidade extremos, garantindo seu funcionamento pleno no clima tropical brasileiro.
- Perfil do consumidor: o interesse do brasileiro por moda e por estar bem-vestido favorece o segmento de relógios finos.
O “Luxo de Entrada” e Questões Tributárias
Embora globalmente a Victorinox se posicione abaixo do segmento de luxo tradicional, a estrutura tributária brasileira eleva os preços ao patamar de “entrada do luxo” no país. Kieliger aponta que relógios de luxo no Brasil começam em torno de R$ 20.000, e os impostos de importação aproximam os produtos da marca dessa categoria.
Há, contudo, uma expectativa de mudança com o acordo de livre comércio entre o Mercosul e o EFTA (bloco que inclui a Suíça). Se concluído, o tratado pode eliminar o imposto de importação, permitindo preços mais competitivos no mercado local.
Futuro e Novos Segmentos
Com uma receita global de aproximadamente 400 milhões de francos suíços (cerca de US$ 500 milhões), a Victorinox planeja expandir sua atuação no público feminino na América Latina, atendendo a uma demanda crescente observada no Brasil. Além disso, a marca continua investindo em edições especiais para a região, como o relógio desenvolvido para o mercado argentino visando a Copa do Mundo.
Fonte: Bloomberg Línea
