Para estudioso, a única transformação real veio de onde ninguém esperava: a consciência ambiental
Por Alice Ferraz*
Uma bolsa de crocodilo, diz Gilles Lipovetsky, “era o símbolo máximo do luxo. Hoje é um problema.” Ele não está falando de preço. Está falando de consciência ambiental – e de como ela se tornou, nos últimos anos, a única força capaz de mudar de verdade a lógica de um setor que, no restante, permanece essencialmente o mesmo há quatro décadas.

Lipovetsky é o principal teórico da hipermodernidade e que profundamente pensou sobre o luxo no Século XX e no começo deste. Autor de “O Império do Efêmero”, “A Felicidade Paradoxal”, “O Luxo Eterno” e “A Estetização do Mundo” – entre outros livros que viraram referência obrigatória para quem trabalha com moda, consumo e cultura –, ele chega a São Paulo para participar do painel de Luxo do São Paulo Innovation Week, evento que acontece no Pacaembu dia 14 de maio.
Professor emérito da Universidade de Grenoble, e membro do Conselho de Análise da Sociedade do governo francês, ele antecipou – direto de Paris – um pouco do que vai trazer ao evento. Quem espera uma análise sobre o impacto das redes sociais ou da pandemia no luxo vai se surpreender.
“O luxo é o luxo há 40 anos”, diz ele. “As grandes transformações aconteceram nos anos 1980. O que veio depois são ajustes – na comunicação, na escala, nos canais. Mas a lógica é a mesma.”
A LVMH já estava entre as maiores empresas do mundo antes de tudo isso. As marcas já eram culturas globais. O desfile já custava dezenas de milhões de euros. O hiperluxo não nasceu com o Instagram.
Há, porém, uma exceção – e é ela que Lipovetsky coloca no centro da discussão. “Pela primeira vez na história do setor, as pessoas com dinheiro para comprar luxo têm preocupação ambiental.”
Uma bolsa de crocodilo, que durante décadas foi símbolo máximo de status, tornou-se cada vez mais difícil de ostentar sem constrangimento. O que parecia impensável há uma geração – que o comprador de luxo se importasse com a origem do material – virou realidade de mercado. “É uma contradição real no coração do luxo”, diz. “O luxo sempre aspirou a ser eterno. Mas um luxo que destrói ecossistemas não é eterno. Ele destrói o próprio futuro que quer habitar.”
O greenwashing existe e ele não poupa as marcas que fazem comunicação verde sobre práticas que não mudaram. Mas o que está em jogo vai além da comunicação.
“Há uma missão política, no sentido nobre, que o luxo precisa assumir. Ele não pode mais dizer: não me importo, apenas aproveite agora.” A artesania manual, nesse contexto, ganhou um significado novo. No tempo da inteligência artificial, criar à mão – como os artesãos da Hermès que fazem um Birkin com as mesmas técnicas de um século atrás – é uma resposta que o mercado encontrou para preservar prestígio e autenticidade. “Nós criamos fábricas com artesãos que aprendem o trabalho à mão. Handmade, na época da inteligência artificial. Mas é isso que faz com que o luxo continue a ter prestígio.”
O segundo ponto que Lipovetsky traz com força é o turismo – e aqui ele identifica algo que vai muito além de uma tendência de mercado. “O ser humano moderno tem uma relação compulsiva com o novo”, diz. “Precisamos o tempo todo de algo diferente. Se não, é como se estivéssemos perdendo alguma coisa.”
Esse tédio estrutural é o motor do turismo de luxo. E, ao contrário de uma bolsa, o desejo de experiência não satura. “Você pode ter 30 bolsas e parar. Mas não há número de viagens que faça você dizer: já chega.”
É por isso que a LVMH está investindo em hotéis. É por isso que estações de esqui privadas, resorts completamente fechados ao público e o turismo espacial — que custa milhões de dólares para dois dias fora da atmosfera – representam a fronteira do setor.
“O futuro do luxo não é um produto. É um lugar, um momento, uma sensação”, indica o especialista. “Não há limite. Como não há limite para a longevidade, a saúde, o turismo. É um luxo infinito”, argumenta.
Quando o assunto chega ao Brasil, Lipovetsky vê uma oportunidade que o mercado ainda não percebeu completamente. “As pessoas podem alcançar o luxo pela segunda mão”, diz. “Há muitos sites. Você pode encontrar coisas incríveis. Precisa de tempo, precisa procurar – mas é luxo real.”
O vintage, para ele, vai além do acesso: uma peça antiga é também uma forma de personalização, de ter algo que ninguém mais tem. E sobre o futuro, Gilles afirma: “A paixão pelo luxo vai continuar crescendo. Hoje há algumas centenas de milhões de pessoas que podem comprar. Em breve, seremos 10 bilhões no planeta. O desejo não vai acabar.”
*Alice Ferraz para coluna Alice Ferraz no Estadão


